O lugar de encontro de quem cultiva o Bem, o Bom e o Belo

Yoga de Rua

Caminhar é um hábito que gosto e cultivo. Nesse janeiro aproveitei para caminhar em locais diferentes. O Rio de Janeiro é privilegiado em cenários. Ou seríamos nós, moradores do Rio os privilegiados? Enfim, dia desses planejei ir caminhar na Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos meus lugares preferidos para esta atividade. Porém, acordei cedo com o impulso de ir ao Aterro do Flamengo, e não à Lagoa. Normalmente saio cedo. Verão no Rio é assim. Caminha-se cedo ou muito tarde, pois é muito difícil para o corpo suportar o calor durante o dia. Mas neste dia, algumas excepcionalidades acabaram atrasando minha saída: primeiro, queria terminar um capítulo do livro que estava lendo; segundo, decidi convidar minha mãe para ir junto e precisei esperar um pouco mais até ela ficar pronta. Fato é que estou pintando todo o cenário pra que você possa perceber como a vida nos encaminha quando estamos minimamente focados com nossos objetivos (poderia também dizer propósito, essência). E assim, inspire-se não só pela história da Yoga de Rua, como também pela bela e divinamente orquestrada fluidez da vida.

Desde que concebi o PorTAO tudo que observo tem suas lentes. O que pode ser relevante para estar por aqui. E neste dia, a vida me levou a conhecer um maravilhoso projeto, por meio da minha mudança de planos feita intuitivamente.

Cheguei ao Aterro. Mal caminhei quinhentos metros me deparei com uma cena que iria mudar toda minha perspectiva da semana (e talvez de Yoga de Rua Aterroum tempo mais longo): debaixo da sombra de uma árvore, uma roda de meditação de moradores de rua! Já viu isso? Já imaginou?

Que vontade imediata de meditar junto! Que vontade imediata de contar essa riqueza aqui no PorTAO!

Neste dia, como estava com minha mãe, que raramente caminha comigo, decidi não me juntar à roda. Continuei caminhando, agora a passos mais largos, para voltar a tempo de ao menos conversar com os meditadores, conhecer um pouco mais a proposta, saber se era um momento pontual ou se costumavam se reunir regularmente. Quando voltei, soube que o professor já não estava mais lá, mas conversei com quatro pessoas que me falaram um pouco sobre o projeto que eu acabara de contemplar. Depois de uma conversa bacana, onde eu perguntava sobre tudo que queria saber e ouvia respostas inspiradoras, fui convidada (ou me convidei?) para o próximo encontro. Fui com sede de meditar coletivamente, conhecer as pessoas, o projeto e seu idealizador. Te apresento o que vi, ouvi e vivi esses dias.

A Yoga de Rua é fruto de um desejo que foi sendo fomentado no coração do André Andrade Pereira, Ahlaad.

André Ahlaad

Aqui na cidade existe um grupo de pessoas que já há muitos anos se mobiliza para prestar assistência a moradores de rua. André compunha este grupo. Há anos, se mobilizam na coleta de doações, preparo e oferta de jantar e ceia de Natal. Inspirado por outras propostas similares, decidiu começar a oferecer café-da-manhã, tendo em mente que encontrariam as pessoas num momento mais propício para o contato, diferente de encontra-los à noite, depois de terem passado por mais um dia duro, e por vezes, estarem alcoolizados. Estava nascendo o desejo de oferecer mais que alimento para o corpo. Nascia o desejo de alimentar a alma dessas pessoas com um pouco de contato social afetuoso, atencioso.

Nesta mesma época, André estava envolvido com prática, aprofundamento e trabalhos de meditação. Resolveu que, depois de um café-da-manhã, ofereceria também uma prática de yoga e meditação. No primeiro dia, segundo ele, ficaram cinco pessoas. O relato final de um senhor que disse estar brigado com a filha há anos, e depois da meditação ter percebido que não havia mais mágoa no seu coração, que a distância não fazia mais sentido, e que iria procurar a filha logo que saísse dali, fez André perceber que este era o caminho a seguir. Compartilhar um momento de pura presença, onde se pode vivenciar amor, atenção, afeto e respeito, poderia ser transformador para todos. E ele estava certo. Hoje soma belas histórias para contar.

Assim foi: aos poucos a participação nas práticas foi aumentando, assim como foram surgindo voluntários para oYoga de Rua trabalho. O projeto segue sem uma coordenação efetiva (André deu impulso a um movimento que parece ter ganhado vida própria), mas com uma fluidez colaborativa. Criou-se uma rede de pessoas que também se identificam a proposta. Pessoas que doam trabalho, pessoas que fazem os alimentos, e também pessoas que apoiam indiretamente (financeiramente) para a sustentabilidade desse belo projeto. Lá na página do Yoga de Rua você pode encontrar como colaborar, se te interessar.  Ainda é difícil cobrir todos os gastos com a alimentação. Fora isso, André tem ideias divinamente grandiosas, que você pode conferir em uma entrevista que ele concedeu a Cristina Stevanin. Como ele mesmo diz: ‘Vamos precisar de todo mundo.’

Hoje, a Yoga de Rua acontece em três dias da semana: as segundas no Aterro do Flamengo, as quarta no Parque Guinle, em Laranjeiras e as quintas na Praça Paris, na Glória, RJ. Sempre de 9h30 às 12h, depois do café-da-manhã oferecido pelo Projeto Voar.

André se reveza com outros voluntários na condução das práticas queAlimentação Vegetariana
aliam meditação, posturas (ásanas) e conversa.

Ao final da manhã, antes de se despedirem, ainda compartilham um almoço vegano, produzido pelo Isha Burguer ou pela Marina, voluntária do Projeto.

Se você mora ou está pelo Rio e quer meditar coletivamente e/ou ter uma experiência dessas que mudam nossas perspectivas de vida, recomendo. Sim, mesmo não sendo morador de rua você será bem vindo e acolhido pelo ambiente amoroso que já instituíram nos grupos.

Te deixo com uma das riquezas que ouvi por lá na minha primeira conversa. O Tiago, marido da Jessica, ambos moradores de rua, me contou como é a experiência para ele: ‘antes, eu achava que yoga era coisa de burguês, mas não. Aprendi tanto aqui. Aprendi que minha respiração, quando feito pelo abdômen… Porque quando estamos tensos respiramos mais no peito, sabe?… Me acalma e me faz pensar melhor. Yoga é muito bom! Bom para todo mundo. A gente adora vir aqui.’ Eu também adorei!!! Quanta coisa maravilhosa se pode viver ao resolver sair para caminhar!

Yoga de Rua Aterro I                 Yoga de Rua Aterro II                 Yoga de Rua Aterro III

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