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Meditação e Vipassana

A prática da meditação tem sido uma constante em minha vida desde 2015, quando estive no curso de Biopsicologia I, no Instituto Visão Futuro, em Porangaba/SP. Lá tive meu primeiro contato com essa realidade: dedicávamos vários breves momentos para o silêncio. Desde então, habituei-me a permanecer em meditação e usufruir da serenidade e do estado de graça que essa prática me proporciona, buscando o desafio de fazer este mesmo estado perdurar no dia-a-dia, nos momentos em que eu não estivesse necessariamente praticando.

Representação do Som primordial – OM, utilizado em Meditação

De lá para cá fui apresentada a distintas visões e conceitos sobre Meditação.  Descobri por mim mesma, que é realmente desafiador descrever ou explicar esse estado de ser. Descobri também que muitos são os métodos que buscam levar a esta realização: visualização criativa, relaxamento consciente, entoação (geralmente mental) de mantras, foco no momento presente, observação da respiração, manipulação da respiração, observação de si mesmo… Todos e cada um deles com seus objetivos e caminhos específicos, mas que em última análise acabam fomentando nosso encontro com o silêncio interior (corpo, emoções e pensamentos apaziguados).

No meu entendimento, muitas das técnicas disponíveis são como passos preparatórios para se estar apto a meditar. Já que meditar não é coisa que propriamente se ensine. Está mais para um estado natural que se alcança, se assim posso tentar descrever minha percepção. Tendo a dinâmica do mundo moderno nos distanciado do que nos é natural, lá vamos nós em busca de quem ou do que nos ensine o melhor caminho de volta a nós mesmos. Do simples silenciar à reconexão com o divino em nós, vai depender do que se esteja buscando.

Honrando a validade das distintas técnicas, trago comigo a impressão de que pessoas diferentes precisam mesmo de técnicas diferentes. Assim também como suponho que uma mesma pessoa pode se beneficiar de técnicas distintas em distintos períodos de sua vida. Eu mesma já experimentei essa possibilidade. Apesar de algumas pessoas preferirem a fidelidade a um método por garantir aprofundamento na prática (ou em si mesmo), senti que passear por diferentes técnicas e vivenciar o que parecia mais funcional para mim no momento, foi uma experiência preciosa e que não me deixou na superficialidade. Na verdade, foi o que me instrumentalizou para uma escolha consciente e consistente da técnica que iria me acompanhar por um longo e imprevisível período de tempo de autodescoberta e reconexão com o fluxo amoroso da vida. Foi todo um processo que naturalmente me preparou (talvez ‘me amadureceu’ seja mais preciso) para essa fidelidade.

Dentre as muitas técnicas de Meditação, há uma onde é preciso dispor de dez dias corridos para vivenciar e aprender a praticar. Assim se inicia o aprendizado de Vipassana.

Quando tomei conhecimento desta técnica por uma amiga trilheira, e soube que seriam necessários dez dias de retiro de silêncio, logo tive vontade de participar. Adoro a possibilidade de viver realidades diferentes das quais estou acostumada. Me dá uma sensação quase indescritível. Algo como uma maior propriedade sobre mim mesma. Tanto de liberdade de possibilidades, quanto de mais vida vivida e aprendida. Quando descobri que literalmente não poderia sequer falar por dez dias com minha família, percebi que não estava pronta para ficar nem uma noite sem ter notícia dos meus filhos. Teria que esperar a hora certa chegar. E assim foi que permaneci praticando meditação, pesquisando, frequentando práticas coletivas, silenciando regularmente duas vezes ao dia. No início, poucos minutos, depois muitos, por vezes, poucos novamente, depois, sem marcar tempo algum. Porém, sempre praticando.

Passar dez dias sem comunicação com meus filhos, durante um bom tempo, foi um impeditivo para mim. Viajando a trabalho com frequência, já havíamos experimentado distância de tempo até mais longa uns dos outros. Porém, jamais havíamos ficado um dia sequer sem nos falarmos. Com uma necessidade grande de controle (ainda não consciente na época) e ainda estabelecendo algumas autonomias na vida dos meus filhos, demorei uns três anos entre ter conhecimento do Vipassana e me inscrever para participar. Foram precisos ainda seis meses depois da primeira inscrição, que tive que cancelar por motivos de trabalho (o Vipassana é agendado com uma antecedência diferente das minhas viagens de trabalho), para que eu pudesse estar lá.

Os retiros de Vipassana podem ser realizados em vários lugares pelo mundo. Aqui no Brasil, em alguns estados. Apesar de apenas o Rio de Janeiro e São Paulo possuírem sede própria (adquiridas por meio de doações aceitas apenas de pessoas que já se beneficiaram da técnica). Foi em companhia de uma amiga, que resolveu me acompanhar depois que tive que cancelar minha primeira participação, que me inscrevi no retiro do Dhamma Sarana, em Santana do Parnaíba/SP. No Dhamma Santi, no Rio de Janeiro, onde havia me inscrito da primeira vez, por ser bem mais próximo de casa, estava bem mais complicado ter disponibilidade para mulheres iniciantes, pois, entre outras coisas, a procura é bem grande. Para você que sentir o chamado (vontade vinda da alma) depois de ler essas linhas e decidir participar, te deixo a seguinte dica: checa no site a data em que abrirão inscrições e neste dia é preciso se inscrever cedo, pois as vagas são rapidamente preenchidas.

Chegado o dia, 21 de março (dia auspicioso do Ano Novo astrológico), não havia muitas dúvidas, pois a organização é muito cuidada e tudo é muito bem e várias vezes explicado. Basta você concordar. Nossa viagem de ida foi plena em curiosidade do que iríamos experimentar. Apesar de a essa altura conhecer várias pessoas que já haviam participado, tudo que se vive por lá é tão pessoal que não há explicações, conselhos ou perspectivas que possam ser úteis. O melhor que ouvi antes de ir, e que só compreendi depois, foi: ‘espero que você se entregue. Apenas isso’, dito pela mesma amiga trilheira que me apresentou a possibilidade Vipassana.


Ainda tenho fortes lembranças gravadas em minha memória. A experiência Vipassana é daquelas que ficam impregnadas nas células, é uma experiência única, solitária (sem solidão) e marcante. Um encontro profundo com nós mesmos. Poderia escrever um livro com o diário de cada um desses dez dias. Todos muito intensos. Só o fato de não termos o hábito do ‘nada a fazer’ senão nos ocuparmos do silêncio já nos coloca em outra dinâmica. E para aqueles que acham que não conseguirão ficar sem falar, posso dizer que provavelmente este nem será o maior desafio. Particularmente, vivi dez dias de vontade de desistir, vivi momentos de agonia onde o tempo parecia não passar, vivi dores no corpo, vivi a superlotação de pensamentos e imagens mentais, vivi a criação insana e doentia da mente incitando os meus medos mais profundos, vivi emoções fortes,… No entanto, vivendo esse compromisso comigo mesma, conquistei serenidade, experimentei profunda conexão com a vida, experimentei o despertar da minha consciência mais profunda (um maravilhoso caminho sem volta), experimentei a mais clara percepção de mim (da vida correndo nas minhas células), desenvolvi um profundo amor por mim mesma (pela sacralidade da minha existência), experimentei respeito profundo aos demais, senti indescritível gratidão por tudo que recebia graciosamente (todo trabalho minuciosamente cuidado e orquestrado é realizado por voluntários),… Desejei profundamente que todos pudessem ter a oportunidade de experimentar tamanha graça e plenitude. Literalmente caminhei na espiritualidade. Dez dias cirúrgicos e notáveis em minha vida!

Lembra que eu contei que já conhecia algumas técnicas de Meditação e passeava por elas? Para mim, e essa é uma declaração muito pessoal, o Vipassana as alinhou. Deu sentido. Organizou. Deu liga. Uniu. Costurou a colcha de retalhos. Já não é mais preciso passear.

Ética. Respiração consciente. Concentração. Firme determinação. Sensação da impermanência de toda experiência. Sabedoria. Equanimidade. Amor!

Todo um novo vocabulário tão bem compreendido, por ter sido sentido!

Sila. Anapana. Samadhi. Adhitthana. Anitcha. Panña. Metta Bhavana!… Possam todos os seres desfrutar da verdadeira paz, da verdadeira harmonia, da verdadeira felicidade!
O último estágio da Meditação Vipassana, a vontade de compartilhar a graça experimentada, é expressa por todos por meio dessa palavra repetida três vezes, como um 'Assim seja'.

Que todos os seres sejam libertos! Que todos os seres sejam felizes!!!

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