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Aurora de um ‘acaso’

Você acredita em acasos? Vou te contar como conheci Aurora, numa série de ‘coincidências’.

Viajo de avião com relativa frequência. De praxe, faço check in antecipado e marco meu assento normalmente no terço detrás do avião, só variando de janelas. Não tenho medo de voar, mas sou claustrofóbica. Ir na janela ajuda a controlar a ansiedade que teima em se instalar. Ir no corredor é uma opção razoável. No meio, jamais! E apesar de costumeiramente me precaver para evitar essa indesejada possibilidade, no meu último voo a trabalho, por alguma razão que não sei explicar, não marquei assento, não fiz check in on line. Por este motivo, mesmo que desesperançosa com a ideia de conseguir um lugar na janela, procurei chegar com um pouquinho mais de uma hora de antecedência no aeroporto. Fui direto até o embarque da cia aérea e perguntei para a atendente  se ainda era viável conseguir não ir ‘no meio’. No que ela respondeu: ‘- Na janela não consigo mais te colocar, mas no corredor, tem um lugar aqui’. Maravilha!

Também como de praxe, fui uma das últimas pessoas a embarcar.

corredor de avião

Fui cuidadosamente acompanhando o número dos assentos. Avião cheio. Cheguei ao meu lugar, 16 C. Fui recebida com um enorme sorriso e um cumprimento afetuoso. Não era de nenhum dos comissários, sempre muito gentis, era de Aurora, minha companheira de viagem e de duas horas de vida compartilhada. A pessoa do assento do meio. Na janela, um rapaz. Esse, não sei quem é, pois os fones de ouvido e o entretenimento promovido pelo sistema de áudio e vídeo da aeronave, não permitiram uma conversa.

Meu namorado ligou: -…‘Já embarcou? Quem está indo ao seu lado?’. No que respondi: ‘-Sim. E ao meu lado, uma moça muito simpática.’ Ou seria empática? Isso eu só descobri depois.

Aurora estava com um enorme livro de Língua Portuguesa que lia com atenção e, de vez em quando, falava baixinho sozinha. Vez por outra sorria. Para mim. Para o comissário que passava. Para qualquer um com quem cruzasse os olhos.

Totalmente fora do que de costume, eu estava viajando de vestido e para me aquecer, apenas uma pashimina. Não sou friorenta, mas quem gosta de passar frio? Avião para mim é sempre de calça comprida, sapato fechado, pashmina e um casaco para emergência, que sempre acontece. Mas não segui minhas próprias regras nesse dia. Vai saber. Os cabelos longos molhados que a pressa para chegar com alguma antecedência no aeroporto não permitiu secar, ajudavam a intensificar o frio que eu sentia. O cansaço acumulado por poucas horas de sono arrumando o que ia para viagem e o que ia ficar, começou a pesar. Encolhida de frio, adormeci por alguns dos primeiros minutos de viagem. Despertei no exato momento em que Aurora guardava seu livro e me pedia passagem gentilmente. Quando retornou ao seu assento, trazendo consigo seu já habitual sorriso, puxei uma conversa despretensiosa. Exclamei o básico: ‘-Tá frio aqui, né?!’. Aurora concordou. Abaixou, tirou sua bolsa debaixo do assento da frente, sacou um casaco de dentro e me perguntou: ‘-Você quer usar?’. Foi uma dupla salvação. Me aqueceu durante toda viagem: com seu casaco e com uma maravilhosa conversa que fez a viagem de duas horas, no assento de corredor, passar voando. Literalmente e metaforicamente.

Dizem que as pessoas que passam por nós e que de alguma forma nos incomodam, representam reflexos dos nossos próprios defeitos, que temos dificuldade de encarar. Como diria Flaira Ferro em sua música ‘Me curar de mim’: ‘dói, dói, dói, despir-se assim’, com nossas feiuras e lindezas, juntas e misturadas. Nesta viagem, nesse encontro com Aurora, aprendi que pessoas com as quais empatizamos também tem sua função: validar o melhor de nós mesmos. Quanto aprendizado num encontro! Aprendi que estar aberta para me relacionar é sempre uma grande oportunidade de crescimento, uma possibilidade de autodescoberta. Seja do jeito que for: aparentemente ruim, quando incomoda, aparentemente bom, quando flui.

Ah, sim! Estamos falando de Aurora. Não sei se ela sabe, mas para mim ficou tão cristalino quanto ela mesma: apesar de estar numa viagem de férias, na verdade, está fazendo uma viagem em busca de si mesma. Pude perceber na sua conversa, nas suas histórias, nos seus olhos, no seu tom de voz, nos seus diferentes sorrisos. Aurora despertando para própria vida.

A mim ficou a certeza de que a sabedoria do mundo está onde se quiser encontrar. E nessa busca em comum, compartilhamos nossas riquezas pessoais: gentileza, experiências, alegria, empatia e o casaco dela.

Trocamos contato. Perguntei se podia escrever sobre ela no site, explicando que tinha uma sessão onde eu contavaAurora e eu meu encontro com pessoas que preservam um jeito positivo de atuar no mundo.

Combinamos um passeio quando ela retornasse ao Rio. Ela afirmou que eu já tinha onde ficar quando fosse à Roma.

Na verdade nem sei se algum dia vamos nos falar de novo. Isso não importa. Maravilhoso mesmo é saber de gente que ri, que está atenta ao outro, que se relaciona com empatia e afeto! Maravilhoso é ser capturada para o fluxo da vida, que é leve e alegre! Aurora despertando e eu acordando para uma conversa que foi uma verdadeira viagem.

Nos despedimos na esteira de bagagem. Eu encantada com minha experiência ao lado de uma alma nobre. Aurora, italiana, feliz por ter tido sua primeira e longa conversação em português.

Comentários

  1. Senti as emoções diversas à medida que ia lendo o relato; muito instrutivo para mim, saber que podemos superar nossos medos e limitações se nos abrirmos para o outro. Terei em mente quando me sentir angustiada ou com frio interno. Grata por compartilhar 😊

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