O lugar de encontro de quem cultiva o Bem, o Bom e o Belo

Onde mora a ética

Onde mora a ética? Eu achava que sabia.

A prática começou assim: uma roda de moradores de rua sentados no chão do parque em cima de seus tapetinhos, dois professores, uma simpatizante, uma visitante se esgueirando, um curioso participando a uma pequena distância.

Junto com o habitual bom dia foi feita a pergunta, quase despretensiosa, que direcionaria o que aconteceria de mais rico naquela manhã: ‘vocês estão bem?’

Lucia respondeu que sim, mas que estava inconformada por trabalhar tanto no carnaval para receber tão pouco. Na verdade, por receber injustamente por seu duro trabalho de recolher e levar muitas latinhas para o ferro velho. Então, desencadeou-se uma conversa sobre as adulterações das balanças que não registram o peso correto – sempre a menos, isso foi um consenso; injustiçando o esforço laboral e frustrando as expectativas.

Ronaldo falou que já é de praxe as balanças estarem adulteradas. Como quem diz que é preciso saber conviver com isso.

José disse que quando começou a vender as latinhas foi aprendendo os locais que pagam mais pelo quilo, e disse que mesmo indo mais longe, acreditava que valia mais a pena. Você deve saber onde levar, disse.

Experiente, Elizabeth contribuiu informando que sessenta e cinco latinhas correspondem ao quilo. Assim, se pode ter uma medida do que vai receber e evitar frustração.

E então alguém disse que para burlar as adulterações das balanças, enchia algumas latinhas com areia ou pedras pequenas. Poucos concordaram, mas muitos disseram ser uma prática comum.

Falei que ia fazer o papel de advogada do diabo, como se costuma dizer. Perguntei onde começava e onde poderia ser interrompida essa história. Será que as balanças foram adulteradas porque as pessoas levam as latinhas cheias de areia e pedra ou as pessoas levam as latinhas cheias de areia e pedra porque as balanças são adulteradas? Quem poderia modificar isso?

Foi quando Edmar pediu a palavra e disse que essa atitude não valia a pena, pois apesar da pessoa conseguir um pouco mais de dinheiro, ela conseguiria também uma coisa que não vale o preço a pagar: o peso na consciência. O dinheiro acaba, mas a consciência fica com a gente, disse.

Dente de leãoNeste momento, Jorge contou que há um mês estava morando na rua, com mulher e filho. Circunstância da vida. Disse que pela primeira vez catou latinhas, pois era a opção no momento. Falou que indicaram onde deveria vender. Levou. Saiu de lá com a certeza de que o que havia levado valia mais do que havia recebido. Mesmo sem saber da já conhecida adulteração da balança. Pensou que poderia discutir com o comprador, mas optou, segundo ele, por ficar em paz e grato porque poderia, com o dinheiro, comprar algo para comer. Caminhando cabisbaixo, sem querer maldizer a sorte, encontrou, a uns metros a frente, uma nota de cinquenta reais perdida no meio fio. Viu ali uma justiça divina. Pôde levar comida para mulher e para o filho, comprar alguns gêneros de necessidades básicas e ainda ficar com uns trocados, conforme contou.

A reflexão, os compartilhamentos e as ponderações se seguiram com os professores costurando um relato e outro com um discurso amoroso, de que mais importante do que ser rico em dinheiro é ser rico em todos os aspectos da vida, e que ações que tem por base o amor trazem para gente tudo o que precisamos.

O curioso assistia a tudo com um largo sorriso no rosto, enquanto se alongava. Penso, particularmente, que sua manhã de exercício nunca deve ter sido tão rica.

Conversa daqui, conversa dali, cada qual com sua percepção e ao mesmo tempo todos ampliando suas percepções.

Jorge resolveu nos presentear com outra história, ou seria com sua nobre e sábia forma de ver a vida? Sua nobre e sábia maneira de ser.

Contou que estava do lado de fora do aeroporto sentado com mulher e filho quando resolveu pedir comida para um homem que chegava de viagem. Disse que quando chegou perto, o homem se assustou. Ele pediu desculpa pelo susto e disse que só desejava falar com ele. Mostrou esposa e filho, apontando de longe, e perguntou se ele poderia comprar uma quentinha para eles dividirem.

O homem bravo respondeu hostilmente e com um enorme sermão. Jorge resolveu ouvir calado e de olhos baixos. Ao final da ‘conversa’ se desculpou por ter incomodado. Falou para o grupo que poderia ter algumas reações: poderia também ter gritado com o homem, poderia ter se revoltado,… Mas achou que qualquer decisão radical poderia ser prejudicial para ele mesmo e sua família. Pensou que, na verdade, aquele homem parecia mesmo estar muito mal consigo mesmo, e… Descontou a raiva nele. Ficou imaginado que poderia ter ido para uma viagem de negócio mal sucedida, que poderia ter vindo de viagem para resolver algo difícil, que poderiam ter muitos motivos para justificar a hostilidade do homem. Para ele, não era muito esforço acolher e entender a necessidade do outro. Voltou cabisbaixo para junto de sua mulher, chateado mesmo por não ter conseguido comida para sua família.

Bastaram vinte minutos para que o mesmo homem, antes hostil, viesse trazendo, segundo Jorge, bem mais do que ele havia pedido. Além de um pedido de desculpas e a promessa de que sempre que o encontrasse iria providenciar comida. Para Jorge, providência divina! Comida e abundância na sua direção. Para mim, comida, abundância, providência divina em todas as direções: na de Jorge, na da sua família, na do homem, na nossa – pessoas que ouviam atentas sua história, sentadas à sombra no parque.

Seguimos juntos para um relaxamento conduzido pela professora e embalado pelos acordes do uculele e voz da visitante já não mais desconhecida. Fizemos algumas posturas de yoga que ajudam a aterrar, sentir e aproveitar toda essência do que foi compartilhado. Dançamos, rimos juntos, trocamos afeto e antes de ir, almoçamos.

Yoga de rua

Nesta manhã aprendi algo muito valioso para mim, talvez óbvio para você. Mas vou compartilhar mesmo assim: já que compartilhar se tornou a ideia central. Compreendi que ética se constrói nas relações humanas. Não nasce da leitura de livros, não nasce de uma educação severa, não nasce em classe social distinta, não se impõe. Nasce, floresce e se estabelece quando ampliamos nossa percepção, quando enxergamos outras possibilidades de atuação e quando a maturidade espiritual (leia-se integral: social, emocional, mental e física) nos permite conscientemente escolher atitudes com foco na coletividade.

O bem que quero para mim, é o mesmo bem que quero para você, é o mesmo bem que quero para o mundo!

Onde mora a ética? A ética mora no senso de comunidade.

Comentários

Deixe seu comentário

XHTML: Você pode usar uma dessas tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

Caminhos
Sabedoria
Atitudes
Autoconhecimento
flor de lotus